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sábado, 7 de maio de 2011

A Medida do Amor



A Medida do Amor 

Vou mostrar o cálculo das medidas do que sinto: 
Com o raio da circunferência de emoção, 
No compasso, dei uma volta na paixão, 
Com régua, calculei o diâmetro de meu coração 

Assim, na matemática, nasceu por ti meu amor 
Numa simples operação adicionei qualidade, 
Em seguida subtrai todos teus defeitos, 
Multiplicando o que sobrou a tua personalidade 

Estou matematicamente te amando, 
Extraiu-se as raízes de minha solidão 
Esse infinito amor, meu coração preencheu 
E assim continuamos, usando a potenciação 

Percebes que tudo começou na geometria? 
E com o tempo, tornamos um conjunto unitário 

Em progressão geométrica, chegaremos ao infinito, 
E cada inteiro do que construirmos, tornaremos fracionário 

Nessa constante divisão: na tristeza e na alegria 
Como retas coincidentes, estaremos sempre juntos 

Tangenciamos nesse ponto do ciclo da vida. 
E com esse belo sentimento, nascerão outros conjuntos.

Izabel Ferraz

terça-feira, 1 de março de 2011

Interiores


Interiores

Temos em nosso interior, desvãos...
Como gavetas,
Como sinais,
Como lembranças.,
Como senões...

Paulo da Vida Athos


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Natal? (o anti-kitsch)

 
As mais belas mentiras habitam aqui.
Nessa selva armada de concreto e cal.
 
Jogos de artifício.
Luzes de ilusão.
Magos mercadores,
Presti/digitação.
 
Verdes ruas doiradas,
feérica vermelhidão!
 
Nevascas fabricadas
com papel crepom,
Estrelas cintilantes
de processador,
e o excessivo choque
de imagem e de som.
 
As mais belas mentiras habitam aqui,
Nessa selva armada de concreto e cal.
Brindemos à ilusão
na egolatria geral...

***********************************
 

O FATO (ou, esvaziamento do discurso acadêmico)


O sol é exato, é fato.
A ciência apura: quantas, fótons.
E eu, cá embaixo,
Um fato?

Dado concreto, objeto dissecado.
No entanto, assistemático.
Quem mensura não me explica.
Que morra toda a estatística
E que a ciência estertore
Como fato de cabrita
Pendurada no curtume.

Sob o sol, nesses ardores,
Não calculem minhas dores.

Quero p(r)o(f)etas,
Não, doutores.


O sol deveras é exato, lá no alto.
E eu,
o objeto, o fato,
ressecado no arame.

Rejeito o método.
Rejeito o número.
Rejeito o nome.

Só me consumo.
E o sol me consome.

Eis um homem!


Fonte da imagem:
Estamira - o filme

domingo, 18 de abril de 2010

A Poesia de Arnaldo Antunes


mais que lento: parado
mais que parado: morto
mais que morto: não nascido
mais que isso: inascível
mais ainda: inconcebível
(o máximo)
nem sequer sonhável



(Arnaldo Antunes, 2 ou + corpos no mesmo espaço. São Paulo: perspectiva, 1998, p. 81)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Ausência


Porque habitas
o meu universo
é que te reconheço,
mas entre
bêbado
e
lúcido
não sei te nomear...

[DiAfonso]

domingo, 12 de abril de 2009

Metade


Metade

Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
Mas a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é a platéia
A outra metade é a canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Ícaro [A Vertigem...]


Eis o homem:
Ícaro de amputadas asas
De alma pútrida...
Áptero... pávido...
Insano... sem dó... dor só!

Eis o homem!
Acordado sem acordes
Com os quais dançar
(dançarino do nada: dor só!)

Eis o homem!
Acordado sem cor
Com a qual se pintar
(dândi do nada: dor só!)

Eis o homem!
Acordado sem palavras,
Sem verbo,
Sem vida
Com a qual apodrecer
em seu túmulo caiado de trevas
(divindade do nada: dor só!)

Eis o homem:
Dançarino... nada!
Dândi... nada!
Divindade... nada!

[DiAfonso]

sexta-feira, 13 de março de 2009

Traduzir-se...



TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

(Ferreira Gullar)

domingo, 25 de maio de 2008

Solitude...


Com os que habitam no cerne da terra profícua convivi,
Com eles, de relevos engravidei-me...
Com eles, de planícies e planaltos inundei-me...

Com a clivagem dos metais me fiz,
Com ela, a vida me foi parida aos pedaços...
Um despedaçar sem fim...

Agora, só estou:
Na alma, um fugidio e indelével relevo...
Ancestralidade que o nada sedimenta...

Agora, só estou:
Na alma, a dolente e primeva clivagem...
Ancestralidade que o tudo cinde...

Agora, só estou:
Um quase nada:
Um relevo que não se diz, 

Uma clivagem que não se faz...

Agora, só estou:
Silencio ante o que ensurdece... 

Disperso-me ante o que unívoco se pretende...

Agora, só estou:
E a alma, deambulante, esvai-se, 

Esvai-se por entre as inóspitas caatingas...

[DiAfonso]



Alma Guerrilheira




Vou te fazer guerrilheira,
minha flor.
Embalsamar-te de raio materno
Pra que teu viver seja eterno
e perpetues a filha primeira,
minha flor!

Vou te fazer guerrilheira,
minha cor.
Pintar-te de alegria suprema
pra que olvides todo o dilema
do querer acuado em trincheiras,
minha cor!


[DiAfonso]

Tua Não-Presença



A tua não-presença
é muito mais que vazio
muito mais é que loucura:

transcende...
transcende...
transcende... 

total ausência...

A tua não-presença
é muito mais que dor
muito mais é que não-cor:


flacidez é...
flacidez é...
flacidez é...
do pós-perder...

A tua não-presença
mata muito mais que o não-existir!
muito mais que o não-estar:


solidão...
de um Deus que não se vê...

[DiAfonso]

Caosagonia: Um Acorde Com Ninguém



Meu cansaço esfacela-se sem nome
E eu esbravejo matilhas ofegantes, espumando
Pela Caça Fugidia que desliza espectral
Dos ombros inefáveis de Deus.

Meu cansaço esfacela-se sem nome
E eu estremeço legiões de demônios, temendo
Pelo Tudo Distante que emerge seminal
Dos ombros inomináveis de Deus.

Meu cansaço esfacela-se sem nome
E eu enlouqueço nômades errantes, viajando
Para Lugar-Nenhum que habita abismal
Os ombros intransponíveis de Deus.

Meu cansaço esfacela-se sem nome
E eu...
Que esbravejo por esta Caça,
Que estremeço por este Tudo,
Que enlouqueço por este Lugar-Nenhum,
Busco desbravar o labiríntico
Dessas sendas sem nomes:
Golpes golfando impotência
Diante dos ombros absurdos de Deus.


[DiAfonso] 


Inequações...



Sou matemático de cabeça para baixo:
as inequações, marcas de minha impotência;
os números, teimosia de Infinitude...
postergando o meu capturar definitivo.
 
Sou matemático de uma agônica geometria:
as linhas, tortas por um contorno inacabado;
as esferas, derretidas na frouxidão do tempo
(talvez, doidamente mais lânguidas que os relógios-tempo de Dali);
os trapézios, trapalhadas trôpegas
de um discurso falido.


[DiAfonso]

Teu Abraço...



Feito brisa, teu abraço
Feito brasa, teu abrir-se

Com a tristeza dos que
Esgotam o ocaso em
Silêncio abismal,
Vislumbro a saudade
E, em seu bojo, a solidão...
E, em seu ventre, a configuração
De clamores inauditos,
Contorcendo-se em agônica espiral:
Plasticidade indelével...

Feito brisa, teu abraço
Feito brasa, teu abrir-se...


[DiAfonso]

Dia Na Noite





E com fôlego, Dia Na Noite,
foste logos
larga

lânguida
logo:
mulher
que faz do meu cosmo
um tumulto planetário.

[DiAfonso]

Registros de uma Saudade Inominável (Re-cortes Dis-sonantes)




É Noite alta e, insone, autoconsumo-me num quarto que parece não ser meu. Sozinho, tenho febre e frio. Entretanto escrevo-Te. Escrevo-Te na ânsia de capturar-Te em Teu sono, em Teus sonhos, em minha semi-ânime vigília.

Na Madrugada fria em que a solidão tece miragens, meus olhos vêem Teu Corpo seminu, de bruços, posto numa cama coberta por um lençol de linho branco, alvíssimo. Teu Dorso, resguardado em parte pelos cabelos longos até quase a cintura, esconde uma beleza plástica... idílica. Direciono meu olhar para os Teus Quadris e, em seguida, para a calcinha (branca... pequena... de renda) e o que ela oculta parece o anverso de uma Cidade Bela que deseja ser habitada. Tuas Pernas entreabertas retesam todo o meu corpo. Sim, Você dorme. Dorme como uma mulher que engendra sonhos. Na força dessa miragem, Você se mexe lentamente feito quem tem o poder de domar a menor marcação do tempo e, ainda envolvida pelo sono, mostra-se de frente. Perscruto Teu Rosto embebido de paz; Teus Seios, tesos de paixão e desejo, são como duas místicas maçãs; Teu Ventre, sagrado, indica-me o caminho da Cidade Bela (envolta pela renda branca) que anseia ser habitada brandamente, quase num sussurro... deleito-me com essa visão e penso no Cântico dos Cânticos... Suspiro e Ninguém me ouve... Jamais ouvirá...

Agora, abres os olhos devagar e me chamas. Entre névoas que turvam meus olhos, atendo a esse chamamento inescapável. Silente, minhas mãos seguram as Tuas, meu corpo envolve o Teu e beijo-Te. Sim, com brandura, minha língua penetra Tua Boca na ânsia da Tua (Língua) e o Tempo inexiste (de prazer, gememos. De prazer, Nossos Corpos se retesam). Minhas mãos, sob os Teus cabelos, massageiam Tua Nuca aveludada e minha boca e língua deslizam docemente (Teu Corpo tem gosto de Mel) por Teus Seios hirtos. Imperceptível, Você se debruça e Teu Dorso clama por prazer. Sedento, atendo ao apelo. Afasto Teus Cabelos e, ofegante entre Tua Nuca e Tua Cintura, sigo em direção a Teus pés (Neles, as mãos de Da Vinci se deixam entrever: anatomia posta em telas). Recomeço a escalada, roçando minha barba por sobre Tuas Pernas até a parte anterior de Tuas macias Coxas. Minhas mãos tocam Teus Quadris, comprimindo-os levemente, lentamente. Você se mexe... geme. Põe-se, agora, de frente e a Cidade Bela (sob a calcinha branca... pequena... de rendas) surge inteira: molhada, suplicante. Beijo o Teu Umbigo e roço minha língua na Cidade Submersa. Suave, meus dentes A descortinam e plena, e bela, e intumescida... desponta. Animal indomável, minha língua dança em movimentos concêntricos no molhado regaço. Sinto Teu cheiro de Mulher e Tuas Mãos afagam meus cabelos. Entrevejo Teus Olhos semicerrrados e um sinal incapturável me diz que é hora de invadir-Te... de deixar escoar o que de represado se fez... é hora de habitar a Cidade Bela... de encarnar a indelével alma dos anjos.

Nossos corpos fatigados, suados, imersos em celeste dormência prendem-se Um ao Outro. Pousando a Cabeça em meu peito, laçando-me com Tuas Pernas macias, encostas a Cidade Bela, ainda inundada, em minha virilha e adormeces...

É Noite alta e, insone, autoconsumo-me num quarto que parece não ser meu. Sozinho, tenho febre e frio. Entretanto escrevo-Te. Escrevo-Te na ânsia de capturar-Te em Teu sono, em Teus sonhos, em minha semi-ânime vigília.

[DiAfonso]

Registros de uma Saudade Inominável [Re-cortes Dis-sonantes] - I



Acordo. Ainda não é dia e acordo. Meus olhos, obliquamente posicionados, capturam a luz do poste, esgueirando-se – sutil e morna – por entre os vidros da janela.

A luminosidade mortiça que vem de fora, possuindo, quieta e tristemente, o ambiente, faz-me ver volumes de livros inertes a se deixarem massagear por réstias inquietas de caramanchões nos títulos refletidas: o poder da penumbra.

Ouço sons quase inaudíveis: um vem de fora do quarto – a porta entreaberta traz-me Chopin vagando pela solidão da noite; o outro parece gestado dentro de mim mesmo... preso a mim mesmo: Tua voz... Tua voz rouca ensandecendo meus ouvidos.

Duelo, solitário e inquieto, contra a Noite... dentro da Noite. Ela, a Noite, a um só tempo superposta e enraizada no cerne da Terra, domina a Cidade Adormecida e, dominando-A, domina-me; e, dominando-me, encarcera-me na Distância Agreste de Ti: amo Você... amo Você... e Teu Rosto (Rota Nebulosa? Navegação Incerta?) é a única e mais inefável imagem presente nesta Ausência sem nome: Saudade Indelével.

[DiAfonso]

Registros de uma Saudade Inominável [Re-cortes Dis-sonantes] - II







Como quem alberga o peso do Universo lido e revisitado durante séculos, inquieto-me com este Hiato a cindir Teu Corpo do Meu: amo Você... Amo e estou só, guardando este Silêncio Profundo que me cega e esta Distância Infesta que me devasta. Juntos, Silêncio e Distância, assemelham-se a Uivos paridos em Noites Infindas, ferindo ouvidos de Ninguém.

Estou cansado... Dormente. Mas o que sinto por Você, este Amor Clandestino, absorve-me, incendeia-me. Meu Corpo, então, procura-Te incansável, inconsolável. E, na circunvolução na qual se acha,

A Ti se entrega
Contigo se deita
Em Ti vagueia
Entre Ti intumesce
Para Ti foi gerado
Por Ti geme
Sem Ti arrefece
Sob Ti descansa

Sobre Ti desliza afogueado, como animal bravio solto nos campos, umedecendo-Te toda... invadindo-Te toda numa chuva torrencial cuja senha é um Amo-Te... riso contido... inaudito...

[DiAfonso]


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